segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Quem fez da modéstia uma virtude esperava que todos passassem a falar de si próprios como se fossem idiotas.
O que é a modéstia senão uma humildade hipócrita, através da qual um homem pede perdão por ter as qualidades e os méritos que os outros não têm?

Arthur Schopenhauer
Esperança

Todo o meu esforço canalizo para a vida. Não para o equilíbrio, não para as certezas. Sigo suportando nas costas todo o peso da desesperança, pois que a esperança, é ridículo, dramático, que a humanidade ainda precise dela.
Esperança em quê? Em remédios que curem?… Em poemas que se dão de mão em mão? E as cartas sem resposta? E os becos sem saída? E a nova hipocrisia?
E o deus-dinheiro que nos espreita a cada esquina?… E a áfrica? E a américa latina?…
E todas essas universidades e tantos analfabetos?…
Toda gente sabe a extensão da verdade: surpreendendo a paisagem esfomeada, o gatilho já não precisa do dedo de ninguém.

Cruzeiro Seixas
“Ao pensar sobre a possibilidade do casamento, cada um deveria se fazer a seguinte pergunta:
- Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a velhice?
Tudo o mais no casamento é transitório”.

Nietzsche

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

NIETZSCHE

Pandora trouxe o vaso que continha os males e o abriu. Era o presente dos deuses aos homens, exteriormente um presente belo e sedutor, denominado “vaso da felicidade”. E todos os males, seres vivos alados, escaparam voando: desde então vagueiam e prejudicam os homens dia e noite. Um único mal ainda não saíra do recipiente: então, seguindo a vontade de Zeus, Pandora repôs a tampa, e ele permaneceu dentro. O homem tem agora para sempre o vaso da felicidade, e pensa maravilhas do tesouro que nele possui; este se acha à sua disposição: ele o abre quando quer; pois não sabe que Pandora lhe trouxe o recipiente dos males, e para ele o mal que restou é o maior dos bens – é a esperança. – Zeus quis que os homens, por mais torturados que fossem pelos outros males, não rejeitassem a vida, mas continuassem a se deixar torturar. Para isso lhes deu a esperança: ela é na verdade o pior dos males, pois prolonga o suplício dos homens.
(IN Humano, demasiado humano).


A alternância de amor e ódio caracteriza, durante muito tempo, a condição íntima de uma pessoa que quer ser livre no seu juízo acerca da vida; ela não esquece e guarda rancor às coisas por tudo, pelo bom e pelo mau. Por fim, quando, à força de anotar as suas experiências, todo o quadro da sua alma estiver completamente escrito, já não desprezará nem odiará a existência, mas tão-pouco a amará, antes permanecerá por cima dela, ora com o olhar da alegria, ora com o da tristeza, e, tal como a Natureza, a sua disposição ora será estival, ora outunal.
(…) Quem quiser seriamente ser livre perderá de mais a mais, sem qualquer constrangimento, a propensão para os erros e vícios; também a irritação e o aborrecimento o acometerão cada vez mais raramente. É que a sua vontade não quer nada mais instantaneamente do que conhecer e o meio para tanto, ou seja, a condição permanente em que ele está mais apto para o conhecimento.
(in ‘Humano, Demasiado Humano).


Derrubar ídolos – isso sim, já faz parte do meu ofício. A mentira do ideal foi até agora a maldição sobre a realidade, com ela a humanidade mesma se tornou, até em seus mais profundos instintos, mentirosa e falsa.
A procura por tudo o que é estrangeiro e problemático na existência, por tudo aquilo que até agora foi exilado pela moral. Quanto de verdade suporta, quanto de verdade ousa um espírito? Cada conquista, cada passo avante no conhecimento decorre do ânimo, da dureza contra si, do asseio para consigo… Pois até agora o que se proibiu sempre, por princípio, foi somente a verdade.
Paga-se mal a um mestre, quando se continua sempre a ser apenas um aluno.
Transtrocar perspectivas: primeira razão pela qual para mim somente, talvez, é possível em geral uma “transvaloração dos valores”.
Fiz de minha vontade de saúde, de vida, minha filosofia.
Um homem bem logrado advinha meios de cura contra danos, utiliza acasos ruins em sua vantagem: o que não o derruba torna-o mais forte. Está sempre em sua companhia, quer esteja com livros, homens ou paisagens.
Aqui precisametne é preciso começar a reaprender. Aquilo que até agora a humanidade ponderou seriamente nem sequer são realidades, são meras imaginações, ou, dito mais rigorosamente, mentiras provenientes dos piores instintos de naturezas doentes, perniciosas no sentido mais profundo – todos os conceitos “Deus”, “alma”, “virtude”, “pecado”, “além”, “verdade”, “vida eterna”, …
Uma coisa sou eu, outra são meus escritos. Não quero ser confundido – isso implica que eu próprio não me confunda.
Ninguém pode ouvir nas coisas, inclusive nos livros, mais do que já sabe. Para aquilo que não se tem acesso por vivência, não se tem ouvido.
Quem acreditou ter entendido algo de mim, havia ajustado algo de mim à sua imagem – não raro um oposto de mim, por exemplo, um “idealista”.

(IN ECCE HOMO).
[...] Enquadrar-se, viver como vive o ‘homem comum’, achar correto e bom o que ele acha correto: isso é a submissão ao instinto de rebanho. Há que se levar sua coragem e o seu rigor longe o bastante para sentir como uma vergonha tal submissão. [...]”

NIETZSCHE, F.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Madame Bovary - Flaubert


Trecho 1
"Na cama, pela manhã, e lado a lado no travesseiro, olhava a luz do sol que passava entre a penugem de suas faces douradas, parcialmente cobertas pelas pequenas franjas de sua touca. Vistos de tão perto, seus olhos pareciam-lhe maiores, sobretudo quando ela abria várias vezes seguidas as pálpebras, ao acordar; negros na sombra e azul-escuro na claridade, possuíam camadas de cores sucessivas e que, mais espessas no fundo, iam clareando na superfície do esmalte. Os olhos dele perdiam-se naquelas profundezas..."

Trecho 2
"Aliás, mais as coisas eram próximas, mais seu pensamento se afastava delas. Tudo o que a rodeava imediatamente, campo entediante, pequenos-burgueses imbecis, mediocridade da existência, parecia-lhe uma exceção no mundo, um acaso singular em que ela se achava presa, enquanto do outro lado estendia-se, à perda de vista, a imensa região das felicidades e das paixões."

Trecho 3
"Lembrou então as heroínas dos livros que lera e a legião lírica daquelas mulheres adúlteras pôs-se a cantar em sua memória com as vozes das irmãs que a encantavam. Ela mesma tornava-se como uma parte real daquelas imagens e realizava o longo devaneio de sua juventude vendo-se como aquele tipo de amante que tanto desejara ser. Aliás, Emma sentia uma satisfação vingativa. Não sofrera suficientemente? Porém triunfava agora e o amor, por tanto tempo contido, jorrava inteiro com alegre agitação. Ela o saboreava sem remorsos, sem inquietação, sem perturbação"

Trecho 4
"Não tinha mais, como outrora, aquelas palavras tão doces que a faziam chorar nem aquelas veementes carícias que a enlouqueciam; de forma que o grande amor de ambos, em que ela vivia mergulhada, parecia diminuir como a água de um rio que era absorvida em seu proprio leito, e ela percebeu o lodo."

Trecho 5
"Quanto à lembrança de Rodolphe, ela a colocara bem no fundo do coração; e lá permanecia mais solene e mais imóvel do que a múmia de um rei num subterrâneo. Daquele grande amor embalsamado escapava-se uma exalação que, passando através de tudo, perfumava de ternura a atmosfera de pureza em que desejava viver. Quando se ajoelhava no genuflexório gótico, dirigia ao Senhor as mesmas palavras de suavidade que murmurava outrora ao amante nas efusões do adultério. Era para provocar a fé; mas nenhum deleite descia dos céus e ela levantava-se novamente, com os membros cansados, com um vago sentimento de um imenso logro. Aquela procura, pensava, não deixava de ser um mérito a mais e, no orgulho de sua devoção, Emma comparava-se àquelas grandes damas de outrora com cuja glória sonhara olhando o retrato de La Vallière e que, arrastando com tanta majestade a cauda agaloada de seus longos vestidos, retiravam-se para a solidão para espalhar aos pés do Cristo todas as lágrimas de um coração ferido pela existência."

Trecho 6
"(...) a difamação daqueles que amamos sempre nos afasta deles um pouco. Não se deve tocar nos ídolos: a douradura acaba ficando em nossas mãos."

Trecho 7
"Não importa! ela não era feliz, nunca o fora. De onde vinha então aquela insuficiência da vida, aquela repentina podridão instantânea das coisas em que se apoiava? (...) Oh! Que impossibilidade! Nada, aliás, valia o trabalho da procura; tudo mentia! Cada sorriso escondia um bocejo de tédio, cada alegria uma maldição, qualquer prazer um desgosto e os melhores beijos deixavam nos lábios apenas um irrealizável desejo de uma maior volúpia.
Um estertor metálico arrastou-se nos ares e quatro pancadas ouviram-se no sino do convento. Quatro horas! E tinha a impressão de estar lá, naquele banco, desde a eternidade. Porém um infinito de paixões pode caber num minuto, como uma multidão num pequeno espaço."

Trecho 8
"Conheciam-se demais para sentir aqueles espantos da posse que centuplicam sua alegria. Ela estava tão enfastiada dele quanto ele estava cansado dela. Emma encontrava no adultério toda a insipidez do casamento."

Trecho 9
"(...) de todas as borrascas que se abatem sobre o amor, um pedido pecuniário é a mais fria e a mais devastadora."