sexta-feira, 18 de setembro de 2009

"ando muito completo de vazios.
meu órgão de morrer
me predomina.
estou sem eternidades
não posso mais saber
quando amanheço ontem.
está rengo de mim o amanhacer.
ouço o tamanho oblíquo de uma folha
atrás do ocaso foram os insetos.
enfiei o quanto que pude
dentro de um grilo o meu destino
essa coisas me mudam para cisco.
a minha independência tem algemas."

(manoel de barros,
in 'ignorãças'1993)
A amizade e a lealdade residem numa identidade de almas raramente encontrada.

Epicuro
O Jardim do Amor





Tendo ingressado no Jardim do Amor,

Deparei-me com algo inusitado:

Haviam construído uma Capela

No meio, onde eu brincava no gramado.

E ela estava fechada; "Tu não podes"

Era a legenda sobre a porta escrita.

Voltei-me então para o Jardim do Amor,

Onde crescia tanta flor bonita,

E recoberto o vi de sepulturas

E lousas sepulcrais, em vez de flores;

E em vestes negras e hediondas os padres faziam rondas,

E atavam com nó espinhoso meus desejos e meu gozo.

William Blake



A Tradição Ancestral que o mundo será consumido no fogo ao final de seiscentos anos é verdadeira, como ouvimos lá no Inferno. Para os Anjos com suas espadas de fogo será necessário baixar sua guarda em prol da Árvore da Vida, e quando ele chegar, toda a criação será consumida a se desvelará o Infinito, e o sagrado dará lugar ao finito e perverso. Todo o crivo deverá ser o melhoramento do Prazer Sensual. Mas a primeira noção que o homem tem para poder distinguir seu corpo de sua alma,será riscada, assim eu o farei, utilizando o metodo infernal, por corrosão, o que aqui no Inferno é salutar e medicinal, derretendo suas cascas e exibindo o infinito que ali reside. Quando as portas da percepção forem abertas, tudo será como é: Infinito! Para o homem fechado em si mesmo, avise-o para olhar através das brechas de sua própria caverna.

( WILLIAM BLAKE )


O amor não busca agradar a si mesmo / Nem destina qualquer cuidado a si próprio / Mas se dá facilmente ao outro, / E constrói um Paraíso no desespero do Inferno.

( WILLIAM BLAKE )

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Espaço Liso

Paulinho Moska

Composição: Moska

Eu amo a causa, e não a conseqüência
Eu amo o Pensamento, e não a inteligência
Eu amo a Loucura, e não a consciência
Eu amo a paciência, eu amo a paciência

Eu amo o deserto, a não a muralha
Eu amo o mergulho, e não a medalha
Eu amo suor, e não a toalha
Eu amo a batalha, eu amo a batalha

Eu amo a alma, e não a pessoa
Eu amo a cara, e não a coroa
Eu amo a corrida, e não a linha de chegada
Eu amo a estrada, eu amo a estrada

Eu amo o agora, e não a memória
Eu amo a luta, e não a vitória
Eu amo o fato, e não a história
Eu amo a trajetória, eu amo a trajetória

Eu amo o bem forte, e não o assim
Eu amo o papel, e não o cetim
Eu amo pra onde vou, e não de onde eu vim
Eu amo o meu meio, e não o meu fim

terça-feira, 15 de setembro de 2009

RAINER MARIA RILKE
DIA DE OUTONO

Senhor: é mais que tempo. O verão foi muito intenso.
Lança a tua sombra sobre os relógios de sol
e por sobre as pradarias desata os teus ventos.

Ordena às últimas frutas que fiquem maduras,
dá-lhes ainda mais uns dois dias de calor,
leva-as à completude e não deixes de pôr
no vinho pesado sua última doçura.

Quem não tem casa não a irá mais construir.
Quem está sozinho vai ficá-lo ainda mais.
Insone, há de ler, escrever cartas torrenciais
e correr as aléias num inquieto ir-e-vir
enquanto o vento carrega as folhas outonais.