quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Não gosto de você, Papai Noel! - Ademar Paiva


Não gosto de você, Papai Noel!
Também não gosto desse seu papel
de vender ilusões à burguesia.
Se os garotos humildes da cidade
soubessem do seu ódio à humildade,
jogavam pedras nessa fantasia!

Você talvez nem se recorde mais.
Cresci depressa e me tornei rapaz,
sem esquecer no entanto o que passou.
Fiz-lhe bilhete pedindo um presente,
a noite inteira eu esperei contente,
chegou o sol e você não chegou.

Dias depois, meu pobre pai cansado
trouxe um trenzinho velho, empoeirado,
que me entregou com certa hesitação.
Fechou os olhos e balbuciou:
"É pra você... Papai Noel mandou..."
E se esquivou contendo a emoção.

Alegre e inocente nesse caso,
pensei que meu bilhete com atraso
chegara às suas mãos no fim do mês.
Limpei o trem, dei corda, ele partiu,
deu muitas voltas, meu pai sorriu
e me abraçou pela última vez.

O resto só eu pude compreender
quando cresci e comecei a ver
todas as coisas com realidade.
Meu pai chegou um dia e disse, a medo:
"Onde é que está aquele seu brinquedo?
Eu vou trocar por outro na cidade".

Dei-lhe o trenzinho quase a soluçar,
e como quem não quer abandonar
um mimo que lhe deu quem lhe quer bem,
disse medroso: "Eu só queria ele...
Não quero outro brinquedo, quero aquele
E por favor, não vá levar meu trem".

Meu pai calou-se e pelo rosto veio
descendo um pranto que eu ainda creio,
tão puro e santo, só Jesus chorou.
Bateu a porta com muito ruído,
mamãe gritou, ele não deu ouvidos,
saiu correndo e nunca mais voltou.

Você, Papai Noel, me transformou
num homem que a infância arruinou,
Sem pai e sem brinquedos. Afinal,
dos seus presentes, não há um que sobre
para a riqueza do menino pobre
que sonha o ano inteiro com o Natal!

Meu pobre pai doente, mal vestido,
pra não me ver assim desiludido,
comprou por qualquer preço uma ilusão:
num gesto nobre, humano, decisivo,
foi longe pra trazer-me um lenitivo,
roubando o trem do filho do patrão.

Pensei que viajara. No entanto
depois de grande, minha mãe, em pranto,
contou que fora preso. E como réu,
ninguém a absolvê-lo se atrevia.
Foi definhando, até que Deus um dia
entrou na cela e o libertou pro céu!

sábado, 18 de junho de 2016

https://youtu.be/Y5RI77hYTI4

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

 

 Nós somos casas muito grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas. 

(Antonio Lobo Antunes).


sábado, 21 de novembro de 2015

Rubem Alves.

Os portugueses se horrorizaram ao saber que os índios matavam as pessoas e as comiam. Os índios se horrorizaram ao saber que os portugueses matavam as pessoas e não as comiam. Tudo depende do ponto de vista.

ESSE EST PERCIPERE AUT PERCIPI

Ilusionismos
Há séculos, reflexões e escritos procuram estabelecer algum parâmetro que permita dizer com certeza que aquilo que vemos, pensamos ou sentimos existe
Em 1980, o essencial Carlos Drummond de Andrade, já com 78 anos de idade, publicou o livro "A Paixão Medida" e nele inseriu uma provocação poética chamada "A Suposta Existência". Nas duas estrofes iniciais está o desafio: "Como é o lugar / quando ninguém passa por ele? / Existem as coisas / sem ser vistas? / O interior do apartamento desabitado, / a pinça esquecida na gaveta, / os eucaliptos à noite no caminho três vezes deserto, / a formiga sob a terra no domingo, / os mortos, um minuto / depois de sepultados, / nós, sozinhos / no quarto sem espelho?".
Ora, uma das mais antigas indagações humanas diz respeito à concretude e à existência efetiva do real; há séculos, reflexões e escritos procuram, tanto no Ocidente quanto no Oriente, estabelecer algum parâmetro que permita dizer com certeza que aquilo que vemos, experimentamos, pensamos ou sentimos existe de fato, não sendo apenas pura imaginação delirante ou ficção passageira. É clássica uma pequena história, de muitos e diferentes modos recontada, que diz ter um sábio chinês adormecido e sonhado que era uma borboleta. No sonho, a borboleta também dorme e sonha ser um sábio chinês. Quando acordam quem acorda? Quem acorda transformado em quê? Quem era quem ao despertar? Qual era a realidade e qual era o sonho?
Pode parecer perda de tempo refletir sobre coisas assim, mas a construção de referências confiáveis para qualquer ação ou pensamento é exatamente a base sobre a qual se assentam as elaborações da arte, da filosofia, da religião e da ciência. Por isso, no século 18, o bispo e filósofo irlandês George Berkeley também procurava uma referência confiável, especialmente para sustentar sua defesa extremada da supremacia do espírito sobre a matéria. Encontrou-a em um axioma latino (embora pudesse ser uma máxima publicitária atual): "Esse est percipere aut percipi" (ser é perceber e ser percebido). O que não é percebido não existe, ou seja, o que não é notado e distinguido perde efetividade.
Em 1944, o pensador francês Jean-Paul Sartre escreveu "Entre Quatro Paredes", uma de suas mais provocadoras peças de teatro. Encenada com adaptações diversas pelo mundo afora, tem um enredo básico: três pessoas que não se conhecem, sendo duas mulheres (a insolente Inês e a fútil Estelle) e um homem (o acovardado Garcin), morrem e, para surpresa completa, vão parar em um cômodo fechado, sem janelas, sem espelhos e quase sem móveis; ali, queiram ou não, terão de conviver por tempo indefinido e, é claro, de suportar-se obrigatória e reciprocamente.
Naquele lugar, o amanhã é sempre a eternidade da presença detestável de outras pessoas com as quais não se quer estar, mas não há como escapar dessa condição (como acontece com muita gente em férias forçadas, em famílias impostas, em casamentos cínicos, em empregos enfadonhos, em lazeres alienantes ou em feriados prolongados).
É nessa peça que se encontra o famoso e nem sempre incorreto vaticínio: "O inferno são os outros". Metáfora da vida contemporânea (já naquela época), a peça inquieta profundamente o mundo das plastificadas convenções sociais, das muitas e tolas vaidades estéticas, das perigosas elasticidades morais e, como complemento sólido, é um desesperador passeio pelo reino das hipocrisias, imposturas e dissimulações das quais somos capazes na breve existência. Há uma cena marcante para demonstrar a parceria entre a futilidade e o desprezo intencional: como não havia espelhos no cômodo -para a aflição da vaidosa Estelle-, esta precisa que as duas pessoas digam a ela como está a sua aparência. Nada dizem. Calam e a torturam com o silêncio, impedindo que saiba por outros como está ela mesma.
A ressurreição eventual do pensamento de Berkeley vem sendo feita de modo hiperbólico, exagerado, exaltado. Não é raro nos depararmos com aqueles que sucumbem aos apelos sombrios oriundos de algumas mídias que proclamam a importância de sermos vitimados por celebridades provisórias, famas instantâneas e personalidades velozmente dissolúveis. Parece que a única regra é ser percebido.
Riquezas aparentes, misérias reais...


MARIO SERGIO CORTELLA, filósofo.

Passagem das Horas - Fernando Pessoa.

"Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto de apoio na inteligência,
Consanguinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.
Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida."

"ando muito completo de vazios.
meu órgão de morrer
me predomina.
estou sem eternidades
não posso mais saber
quando amanheço ontem.
está rindo de mim o amanhecer.
ouço o tamanho oblíquo de uma folha
atrás do ocaso foram os insetos.
enfiei o quanto que pude
dentro de um grilo o meu destino
essa coisas me mudam para cisco.
a minha independência tem algemas."

(Manoel de barros, in 'ignorãças'1993)